É fácil de perceber quando um jogo tem confiança em sua mensagem - não há limite de orçamento que o pare quando um desses aparece. The friends of Ringo Ishikawa te coloca na posição do dito cujo, delinquente adolescente e líder de uma gangue da escola, constantemente matando aula para badernar, beber e lutar nas ruas - seu antepassado de bom aluno e prodígio karateca um espectro saudoso para todos os adultos da história. Porém, é aí que o jogo começa, o passado de Ringo definido, o futuro em suas mãos, já que está no controle de Ringo em todos os momentos deste último semestre de escola: se ele vai brigar na rua, é porque você foi lá e brigou; se ele vai voltar aos eixos, é porque você decidiu ir às aulas e estudar, não através de uma decisão binária em um menu, e sim pelo ato maçante de todos os dias ir para a aula no horário certo e estudar, gastando o tempo em que o jogador - e Ringo - poderiam estar fazendo algo mais divertido e interessante. Este ato de forçar o jogador a viver a vida de Ringo e tomar junto dele as decisões fáceis e difíceis que devem ser tomadas todo dia no andar massacrante e irrefreável da rotina e do tempo o aproxima da personagem e também a humaniza, mostrando que apesar do seu exterior de rebelde insuportável e grosso, Ringo está lidando com a mesma gigantesca tarefa de existir que todos nós estamos.

E como o jogo se mantém interessante no meio disso tudo? Ele é bem escrito, embora sua história seja um pouco escassa, porém, quem carrega todo o espetáculo é o senso de atmosfera impressionante que um jogo tão visualmente simples consegue conjurar. Ringo Ishikawa não é o jogo que é pelos momentos em que você tenta se encaixar em uma rotina para fazer seus pontos de matemática ou de soco subirem, mas sim no momento quando você, inspirado pela trilha sonora e pelo farfalhar das folhas nas árvores, pelo humor melancólico da cidade e pelo peso da situação, decide, não se importando com otimizações gamificadas, parar por uns 30-40 minutos e apenas ficar sentado no banquinho da praça ou escorado no corrimão da ponte e contemplar, a cabeça vazia do Ringo marionete sendo preenchida pela do Ringo pessoa e a do jogador, sentindo e transmitindo a onda de emoção arrebatadora que você tenta conter e ocupar com todo momento da rotina. O meu Ringo gostava de tirar os domingos para ficar lendo o dia todo na praça, e essa memória ficará comigo muito mais do que qualquer level up que um jogo pode me proporcionar.

O tom do jogo é de desespero e de rebeldia, retratando o comportamento deste grupo de jovens delinquentes como a resposta que encontraram para uma sociedade conformada e sem propósito. A violência presente nele é também sem propósito e quase totalmente opcional, o jogo começando com uma luta que, para os personagens é um evento de escala épica, porém é logo depois saltada pelo jogo no meio de seu clímax, indicando sua postura diante de todo este conflito - essa violência é apenas uma crise desesperada e um grito de desespero diante do terror da conformidade durante toda sua duração. Todas as vezes que levava meu RIngo para brigar nas ruas sentia como se estivesse tentando afastar esses demônios da rotina e do futuro, sublimar o sofrimento em algo físico e violento.

Embora a obra não seja perfeita, ela é do tipo que inspira através de seu puro ardor, fazendo com quem jogue consiga sentir mais do que só o que está presente na tela, captar a essência e a ideia de um artista que queria dizer tanto através de um meio que, embora tenha grande potencial, sempre o limitará pela dificuldade de sua produção. The friends of Ringo Ishikawa poderia ser e ter muito mais - mais diálogo, mais opções, mais reatividade, mais atividades - mas o seu cerne é claro e incorruptível, e digno de um respeito muito maior do que sua estatura parece projetar.

Reviewed on Feb 21, 2021


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